terça-feira, 23 de maio de 2017

Falta


Às vezes eu queria poder falar de certas coisas que nem sei
Queria só dizer que foi difícil dormir ontem
Que às vezes de noite eu sinto a noite entrar em mim
Sinto que posso tocar a solidão do quarto

Queria falar que minha respiração é pesada mesmo sem motivo
Que a imaginação é revoada mesmo sem destino
Que divago com meus pensamentos pela rua
Eu sinto um nó atado na garganta

Às vezes sinto que o ar me falta,
Que o mundo me falta,
Que me falta alguém
Que me faça falta

Tem dias que os dias deslizam pela minha janela em gotas
Que os vidros são embaçados e o frio rasga minha vontade
Que as cobertas são finas e a solidão espessa
O tempo se vai sem pressa, devagar

Parado na sala me deixo estar, ficar, permanecer
Entre cômodos passeio sem rumo
Passo entre anseios e desejos
Me movo quilômetros sem sair do lugar

Às vezes sinto que tudo me falta
Que pedaços me faltam
Que algo importante me falta
Que me faça falta, mas já nem sei 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Na Soleira

Na soleira da porta de casa,
Percebo a vida mais de perto
Vejo passarinho bater asa
E voar para campo aberto

Avoar na alvorada do sonho
Alcançar o céu abarrotado de brilhos
Escuto um apito, é choro tristonho
De quem é trem e permanece nos trilhos

Corro,
Pelos campos do destino
Penso então em passarinho
Que não cansa de voar
Corro,
O peito em desatino
Eu me entrego ao caminho
Que insisto em trilhar.

Devagar e constante, eu sigo
Desbravar o descampado da vida
Esse sonho que ainda persigo
De um alguém sem passagem de ida

Passarinho é composto de nuvem
Trem é só ferro e apito
Um, é melodia que se mantem
O outro, é disritmia de um solitário grito

Ambos se confundem nessa estrada
Ir, voltar, permanecer, são caminhos da liberdade
Daquele encontro não restou quase nada
Vejo da soleira da porta e o coração sabe que foi verdade

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Zero - Passos a Beira


O vento joga seus cabelos para longe
Os pensamentos vão mais além
Vão para um lugar distante, vão para dentro dele.
Da beira do abismo ele olha para o horizonte e se reconhece
Um tolo que está na beira de tantas coisas
Na beira do penhasco, da viagem, de si mesmo
Tanto ainda por andar,
Tanto por saber,
Tanto por se tornar
E é só o começo

Artista de sua própria vida
Faz graças com as desgraças e bonanças
Faz malabares das suas emoções
Joga para cima lágrimas, sorrisos, pesares, amores
Tudo que já viveu, tudo que já andou, tudo que já sentiu
E é só o começo

Na sua frente, uma neblina de confusão que esconde o caminho
Ele não sabe o que virá
Atrás, uma estrada torta e única,
Composta pelas escolhas que o trouxeram até ali
Até a beira de si, até a beira de tudo
E é só o começo

Continua uma criança tola que carrega flores mortas
Assombrado pela distância que cria a cada passo que dá
Extasiado por construir seu próprio destino
Deixa-se guiar pelo instinto até o limite
Até que o erro o alcance e ele caia e se erga e continue
E é só o começo

Uma revoada de sentimentos no peito
Incontáveis lembranças na bagagem
(que não é grande, nem pequena, é do tamanho de seu ser)
Tentativas incomensuráveis de viver
De se entender, de seguir adiante
Tudo o que ele é, está naquele primeiro passo
Que é só o começo de tudo o que virá

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Do que será



Olha pra mim e vê o meu olho a te olhar, a minha boca a falar e ouve isso que não consigo guardar em mim e ouve essas palavras para depois decidir o que fazer, decidir só depois de saber das coisas com o percebo, como concebo, como vejo que nesse curto período juntos, que não é curto, é apenas o período que já passamos lado a lado, mas que são dias, semanas, séculos de cama entre braços e afagos, entre segredos e suspiros estreitamos laços, desfazemos espaços entre nós, a sós ou com outros, construímos lembranças com todos os timbres de nossa voz, tivemos também momentos intensos, eternos, compartilhados, desfrutados, deleitados e o que vivemos juntos é mais do que simples tempo gasto lado a lado, pois é de nós que falo, é do que foi, é do que tiver que ser, é de não ter culpas a carregar, nem projeções fazer, nem arrependimentos ter, sem nada esperar além da presença, do conforto, dos carinhos, dos sorrisos, da amizade, do que for mais que amizade, do que ultrapassar as descrições, do que for sentido, do que for domingo fagueiro, do que for noite estrelada, do que for momento inesquecível, do que for detalhe perecível, sejamos então tudo o que podemos ser nesse lago fundo que somos nós, nessa dança louca pelo mundo, nesse grito dissonante de amor que ecoa de nossos lábios que não falam tudo, mas que cortam a dureza da vida com o sorriso irremediável de felicidade e que os meus agora se movem nessa fala descomposta de um único sentido mas que se direciona para uma única questão, nervosa e necessária para mim e que talvez não tenha uma resposta para sempre, mas que seja por agora e enquanto fizermos bem um para o outro e que só saberei após fazê-la e ouvir o que tens a dizer por hora e sem mais demora faço-a agora: Posso lhe acompanhar nessa estrada de ida até o infinito e ser seu companheiro durante o restante desse caminho inteiro?

terça-feira, 11 de abril de 2017

Amargas Raízes


Eu magoei alguém
Alguém que caminhou ao meu lado
Falando de música, escritores, livros
Vidas, sentidos, animais e carinhos
Magoei alguém que se abriu pra mim
Angustias, felicidades, medos
Tédio, problemas, ponto de vista
Uma pessoa que nem sempre estava do meu lado
Sejamos sinceros, estava, mas não do jeito palpável

Eu magoei alguém
Eu magoei por não me importar
Magoei por saber que uma flor crescia nela e não me importar
Eu apenas deixei criar raízes sabendo que ela cresceria se eu nada fizesse
Tentei me isentar da situação, mas quando eu podia eu lhe dava água
E antes que qualquer flor brotasse, a dona decidiu arrancá-la
Um ato mais maduro e melhor que o meu

Eu magoei alguém
Magoei alguém que olhou para dentro de si e viu uma possível flor
Ela estava quase desabrochando
Se piedade ou temores, decidiu arrancá-la
Nada impossível, apenas doloroso
Com suas mãos sensíveis ela segurou e começou a puxar
Ela ainda puxa, num exercício diário e exaustivo.
Não será rápido, levará um tempo para retirar todas as raízes.

Eu magoei alguém
E não sei quanto tempo vai ser necessário para que a dor passe
Nem ela sabe.
Ela ainda puxa as raízes de uma flor morta e sente dor por isso
Ela sangra.
Deixei que se ferisse por eu não fazer nada
Isso me magoa, me machuca, me dói
Eu sinto dor, mas ela sente mais e eu sou o responsável. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

Antes de se afastar


Viu, olha só o que aconteceu
O tempo passou e algo se perdeu
Só me restam resquícios de você e eu
Nada mais do que vejo te pertenceu
                                                                          
Viu, eu não estou tão bem assim
Já não florescem tantos sorrisos em mim
Me sinto perdido numa estrada sem fim
Com saudades dos teus lábios carmim

Viu, o tempo é maior do que imaginei
Tenho medo de perceber que só eu amei
Que foi só ilusão, um delírio que causei
Em mim, em você, um sonho que sonhei

Viu, eu falo tudo isso, mas não posso reclamar
Pro meu coração perdido tu destes um lar
Temporário e necessário para me acalentar
Me ensinar tantas coisas, inclusive a sonhar

Viu, deixa os lamentos, são meus e demais ninguém
Deixa os problemas, não leva o que não te faz bem
Deixa o tempo seguir em frente, que ele te leve além
E se um dia quiseres voltar, não pensa muito. Vem

domingo, 26 de março de 2017

Perguntas que não te faço


Eu queria te perguntar tantas coisas
Saber as respostas de coisas inúteis e previsíveis
Não pelas respostas, mas pela tua voz
Pelo envolvimento,
pelo interesse,
por uma conexão que não precisa ser desfeita

Eu queria perguntar sobre teu dia,
se chove, se tem sol,
se foi longo, se passou voando,
se você voou com ele ou se ficou com os pés no chão.

Eu queria perguntar sobre teu tempo,
sobre você,
sobre teus olhos,
o que eles veem de novo,
o que se repete,
o que te encanta no primeiro olhar

Eu queria perguntar sobre tuas mãos,
o que elas tocam,
o que elas apontam,
o que elas almejam,
do que elas sentem falta,
se ainda são macias,
se ainda são suaves
ou se as escolhas tornaram elas mais ásperas,
mais firmes,
mais machucadas

O que eu mais queria perguntar
era sobre teus pés,
se um dia eles voltariam ao meu jardim,
voltariam a rua onde moro
ou se voltariam para perto
ou se seguiriam cada vez mais distante,
até alcançar o nascer do sol.

Tantas perguntas sem respostas
Tantas possibilidades do teu ser
E não saberei de nada
Porque o silêncio não é meu, é seu
Então vou viver com a certeza de que onde você estiver
Sorrisos vão surgir
Alegrias vão brotar
Sonhos vão se concretizar

E o tempo vai dançar

domingo, 19 de março de 2017

Nada a ver


Eu queria umas coisas te falar
Só quero mesmo te contar
Que até besteira pode ser,
Ou pode não ter nada a ver

Não pense que é alguma cobrança, não
Ta mais pra desabafo, desafogar do coração

É que adoro te ver sorrir
E adoro te ver surgir
Pela esquina, pela rua
Com o sol ou com a lua.

E toda vez que te vejo, te quero
Toda vez que te vejo, desejo
Toda vez que te vejo, sorrio
Toda vez que te vejo, eu vivo
Um pouco mais e mais e mais

Mas me enrolei e não era isso, não
Era outra coisa que também tá no coração
É que eu tenho medo da partida
Medo da tua viagem só de ida
Para um lugar que eu não possa te olhar
De perto, em detalhes que posso guardar

Pois quando não te vejo, saudade
Quando não te vejo, crueldade
Quando não te vejo, maldade
Quando não te vejo, vontade
De te ver mais e mais e mais

Aaaah também não era bem isso..
É esse meu anseio me torna submisso
De uma vontade maior
De ser alguém melhor
E parece que do teu lado feliz eu posso ser
Do teu lado tenho chance reais viver
Mas sei que não tem nada a ver
Porque não dependemos do outro para florescer

Você deve estar muito feliz ou quase isso, eu suspeito
É que nas fotos te vejo sorrindo, de um lindo jeito
Tão teu, tão único que me suaviza o peito
Talvez tenha até encontrado um sujeito
E isso me dói demais e mais e mais
Continuo enrolado, efusivo, nervoso e confuso
Falando palavras inúteis que normalmente não uso
Falando de uma forma idiota, sem métrica, até com rima
Falando coisas que você não vai ouvir nem dar a mínima

Que se foda.

Vou falar tudo de uma vez para não me arrepender
Nem deixar nada preso pelo medo

Mas é que toda vez, toda maldita vez
Que te vejo sorrindo
Por algo que não sou eu
Sinto um prego em meu peito
Sinto um corte reto
Sinto uma gota escorrer
No peito, no rosto, na alma
Sei que não é certo
Não é!
Mas eu sinto, apenas sinto!
Num impulso incontrolável eu sinto.
Pode me julgar, me condenar, me repudiar
Sei que nada disso importa!
Porque você nunca vai saber
Porque eu nunca vou te falar essas coisas
Nem uma palavra se quer.
E por essas palavras jamais te alcançarem
Me sinto livre para falar
Assim posso tudo
Eu posso gritar
Eu posso uivar
Soltar essas dor pela garganta
Soltar esse lobo pelo campo
Porque te quero e isso não mudou
Porque te quero e sei que isso não basta
Porque te quero e não vamos ficar juntos

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Lonjuras

Meu coração é feito de amores
Meus amores são forjados em lonjuras
De distâncias intermináveis que por vezes se atenuam
Que por vezes são desfeitas como brincadeira
Mas que por ser, em sua essência, compostos de longitudes perenes
Acabam seguir o caminho do horizonte
E lá se instalam.
Cada um no seu quinhão de distância.
Constroem casa, repouso, um pouso pra tantos voos
Tão lindo, tão pleno, tão remoto,
Tão longe, quase intocável...

Tem vez que me pergunto se eu amo de verdade
Ou se amo o desenho borrado que crio desses amores?
Será que amo miragens no deserto?
Estrelas no infinito do céu?
Fantasia de um sonho inconstante?
É isso que chamo de amor?

Pode até ser, mas como são bonitas essas lonjuras
Esses campos no caminho
Esses mares entre nós
Tanta estrada para se percorrer
E no fim dos passos, um tesouro incalculável
Um sorriso sincero, um olhar saudoso
Um querer perto que nenhuma lonjura desfaz

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Prometido


As luzes dos letreiros foram ligadas
Ainda tô enrolado, agenda atrasada
Quero te ver, mas o céu está armado
Com suas gotas apontadas para o chão
Querem me parar, enganar meu coração
E me impedir de cumprir nosso combinado

Dois passos fora de casa
E do céu, toda a água vaza
Choveu como se não houvesse amanhã
Como se as águas afogassem o caminho
Querem me impedir alcançar teu carinho
Teimoso, decidi encharcar o blusão de lã

Molhado até a alma
Sigo com frio e calma
Subo as escadas. Deixo água em cada passo
Tua porta aberta, teu sorriso aberto.
Te encontro e tudo então parece certo
O frio fica pra fora, me aconchego no teu abraço

Amanheceu. O sol nasceu.
Ouço tua voz. Na casa só nós.
“Apesar da chuva, não fiquei resfriado
Não se preocupe, não. Obrigado
Deixa que o blusão fica molhado.
Deixa eu ficar aqui. Gastar o dia ao teu lado.