domingo, 19 de março de 2017

Nada a ver


Eu queria umas coisas te falar
Só quero mesmo te contar
Que até besteira pode ser,
Ou pode não ter nada a ver

Não pense que é alguma cobrança, não
Ta mais pra desabafo, desafogar do coração

É que adoro te ver sorrir
E adoro te ver surgir
Pela esquina, pela rua
Com o sol ou com a lua.

E toda vez que te vejo, te quero
Toda vez que te vejo, desejo
Toda vez que te vejo, sorrio
Toda vez que te vejo, eu vivo
Um pouco mais e mais e mais

Mas me enrolei e não era isso, não
Era outra coisa que também tá no coração
É que eu tenho medo da partida
Medo da tua viagem só de ida
Para um lugar que eu não possa te olhar
De perto, em detalhes que posso guardar

Pois quando não te vejo, saudade
Quando não te vejo, crueldade
Quando não te vejo, maldade
Quando não te vejo, vontade
De te ver mais e mais e mais

Aaaah também não era bem isso..
É esse meu anseio me torna submisso
De uma vontade maior
De ser alguém melhor
E parece que do teu lado feliz eu posso ser
Do teu lado tenho chance reais viver
Mas sei que não tem nada a ver
Porque não dependemos do outro para florescer

Você deve estar muito feliz ou quase isso, eu suspeito
É que nas fotos te vejo sorrindo, de um lindo jeito
Tão teu, tão único que me suaviza o peito
Talvez tenha até encontrado um sujeito
E isso me dói demais e mais e mais
Continuo enrolado, efusivo, nervoso e confuso
Falando palavras inúteis que normalmente não uso
Falando de uma forma idiota, sem métrica, até com rima
Falando coisas que você não vai ouvir nem dar a mínima

Que se foda.

Vou falar tudo de uma vez para não me arrepender
Nem deixar nada preso pelo medo

Mas é que toda vez, toda maldita vez
Que te vejo sorrindo
Por algo que não sou eu
Sinto um prego em meu peito
Sinto um corte reto
Sinto uma gota escorrer
No peito, no rosto, na alma
Sei que não é certo
Não é!
Mas eu sinto, apenas sinto!
Num impulso incontrolável eu sinto.
Pode me julgar, me condenar, me repudiar
Sei que nada disso importa!
Porque você nunca vai saber
Porque eu nunca vou te falar essas coisas
Nem uma palavra se quer.
E por essas palavras jamais te alcançarem
Me sinto livre para falar
Assim posso tudo
Eu posso gritar
Eu posso uivar
Soltar essas dor pela garganta
Soltar esse lobo pelo campo
Porque te quero e isso não mudou
Porque te quero e sei que isso não basta
Porque te quero e não vamos ficar juntos

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Lonjuras

Meu coração é feito de amores
Meus amores são forjados em lonjuras
De distâncias intermináveis que por vezes se atenuam
Que por vezes são desfeitas como brincadeira
Mas que por ser, em sua essência, compostos de longitudes perenes
Acabam seguir o caminho do horizonte
E lá se instalam.
Cada um no seu quinhão de distância.
Constroem casa, repouso, um pouso pra tantos voos
Tão lindo, tão pleno, tão remoto,
Tão longe, quase intocável...

Tem vez que me pergunto se eu amo de verdade
Ou se amo o desenho borrado que crio desses amores?
Será que amo miragens no deserto?
Estrelas no infinito do céu?
Fantasia de um sonho inconstante?
É isso que chamo de amor?

Pode até ser, mas como são bonitas essas lonjuras
Esses campos no caminho
Esses mares entre nós
Tanta estrada para se percorrer
E no fim dos passos, um tesouro incalculável
Um sorriso sincero, um olhar saudoso
Um querer perto que nenhuma lonjura desfaz

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Prometido


As luzes dos letreiros foram ligadas
Ainda tô enrolado, agenda atrasada
Quero te ver, mas o céu está armado
Com suas gotas apontadas para o chão
Querem me parar, enganar meu coração
E me impedir de cumprir nosso combinado

Dois passos fora de casa
E do céu, toda a água vaza
Choveu como se não houvesse amanhã
Como se as águas afogassem o caminho
Querem me impedir alcançar teu carinho
Teimoso, decidi encharcar o blusão de lã

Molhado até a alma
Sigo com frio e calma
Subo as escadas. Deixo água em cada passo
Tua porta aberta, teu sorriso aberto.
Te encontro e tudo então parece certo
O frio fica pra fora, me aconchego no teu abraço

Amanheceu. O sol nasceu.
Ouço tua voz. Na casa só nós.
“Apesar da chuva, não fiquei resfriado
Não se preocupe, não. Obrigado
Deixa que o blusão fica molhado.
Deixa eu ficar aqui. Gastar o dia ao teu lado.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Davi e Heitor - Números e Perguntas


Acostumado com as calorosas discussões, o garçom secava um copo, olhava o relógio, escutava a conversa, momento sim momento não esboçava um quase sorriso e aumentava a atenção nos dois estranhos já conhecidos. Ali naquele bar, Heitor e Davi se encontravam, discutiam, brindavam a vida e abriam seus corações. Naquela noite, era Heitor quem mais falava:
- Do ponto da vida em que me encontro, percebo a relação entre os números e as perguntas. Não é uma relação plena e de fácil compreensão, mas uma singular e sutil relação.
- Você está louco. Não há sentido nisso. – E levemente coloca o copo entre os lábios, só para perceber que não há líquido nele. Rapidamente resolve esse problema.
- Talvez você esteja certo, mas essa relação é só minha. Seu significado simples não diz nada. Já o complexo significado que lhes dou revela meu mais profundo eu.
- Conjecturas de um bêbado. – Davi tentar trocar de assunto.
-É o signo deles que me encanta. – Ignora com extrema indiferença a fala do amigo e se deixa levar por seu raciocínio. - Os números são os representantes máximos daquilo que é vivido. Eles quantificam cada detalhe que vivo. Por exemplo: - 1.432 vezes que cantei em público; - 10.000 sorrisos que fiz brotar; - 72 bocas que entreguei meus beijos; - 5 mulheres que amei como um louco; - 200 malditos textos que escrevi num livro digital.
- Esses são números aleatórios. – Davi tenta ser ouvido e novamente ignorado.
- Tudo o que vivi. Tudo é número. Minha vida cifrada em números. Dados que se desvendados, calculados e revelados resultam em mim. Apenas em mim, nada mais. Os números são o bastião do passado. – Silencia a voz, mas os pensamentos ecoam alto em seus olhos. Calculando e decifrando a si mesmo. Pequeno silêncio. Vencido pela curiosidade, Davi quer saber mais sobre o pensamento de Heitor.
- E as perguntas? São o que? Possibilidades do que poderia ser vivido?
- Não meu amigo. São o completo oposto. As perguntas, dúvidas, questões, interrogações são o desconhecido, são o que virá, são o efêmero da vida, são o futuro, são sombras dançando diante dos olhos. – Heitor olha para Davi para ver o efeito que suas palavras têm no amigo. Com uma expressão séria ou a mais séria que sua embriagues permite, pensa no que Heitor disse. Um pouco confuso olha para o companheiro. Antes que pudesse falar alguma coisa é sobrepujado pela voz Heitor.
- Na certa, você me perguntará se não há números no futuro. Não, não há. Só projeções e possibilidades de números. Pois esse é o futuro. É pergunta, é dúvida. Vários caminhos que por várias possibilidades pode se transformar. É o que queremos que aconteça, mas o que acontece nem sempre é o que se espera. São contornos suaves de um desenho, que só será preenchido conforme vivido para depois ser quantificado em números. Um ciclo eterno. Essa é a minha relação.
Pausa. Reflexão. Silêncio. Ou tanto silêncio quanto é possível num bar as 03h da manhã ocupado por dois homens e um garçom. Os dois homens parecem mergulhar em seus pensamentos. Quem sabe só estejam bêbados demais pensando no nada. Mas o que ocorre é um instante de silêncio. Quem quebra esse silêncio é som de um quebrar de copo seguido por um “Que bosta!” do Garçom. Davi trás sua consciência para o presente e fala:
- É uma forma de enxergar as coisas.
- Acho que só consigo ver a vida assim. Nós somos números e perguntas. Fatos e projeções. Certezas e indecisões. Somos formados por um passado quantificável e por um futuro de possibilidades incertas. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Silêncio Afiado



Esse silêncio corta!
Me dá ao menos tua palavra torta
Que não é dita
Nem nunca será
Se proferida, bendita!
Desgraçada se calada
Nessa noite que segue, mal amada,
Quieta como tua boca
Sem suspiros
Sem anseios
Sem palavras
Por isso, esse silêncio corta
Teu silêncio me corta!
E eu me sinto meio morta
Sem sopro de vida
Com passagem só de ida
Para os confins de um mundo
Quieto, pesado, parado
De onde não existe volta
Porque teu silêncio me corta
Talha
Retalha
Machuca
Arranca
Desmancha
Me faz sangrar

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Surdo e Invetivo

Sei que não existe lógica, sentido ou razão
Para o amor que tenho no meu coração
Há uma única certeza que não muda:
É que o amor é coisa de gente surda
Aquilo que eu falo ela não escuta
Aquilo que eu escuto ela não fala
O que não é dito me faz crer
O que ouço me faz distorcer

E o amor? O amor... Ah, o amor

Tá entre a realidade e o desejo
Ele tá entre a vontade e o beijo
Parte na imaginação
Parte no coração
Não sei ao certo definir o que ele é
Mas imagino ele da cabeça ao pé
Tem dias que sou solidão, sim
Noutros sou amor que não tem fim.
Só há felicidades e ternura.
Eu sou aquele amor que perdura.

Sou amor! Ah, esse amor! Amor, amor, amor!

Certos dias, sinto mais do que a vida me dá
Sinto as emoções de quem, dominado está,
Por algo tão intenso que não dá apenas para sentir.
Eu quero, preciso, tenho que falar ou então explodir
O meu coração é pequeno pra tanto sentimento

Pois todo o amor dessa vida eu sinto, só que um pouco dele eu invento.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Paixão em Ciclos


E me apaixono de novo
Me perco em tuas caricias
Em teus carinhos
Em teus caminhos

Trilhas, sendas, percursos
Que me levam até o mar
Que me levam a te amar
Que me inundam de amor

Eu sei onde a felicidade existe
É onde o sonho persiste
E o mundo se torna certo
Entre os braços e com coração aberto

Distante do que desejo
Acordado e sem sono
Por você eu me apaixono
De novo, de novo e de novo

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Re-a-vejo


Hoje penso, repenso, reflito, me vejo aflito nesse ciclo contínuo de pensamentos inquietos, que não param de desenhar imagens constantes de pessoas distantes, que parecem nunca se aproximar e que nunca se distanciam do meu peito e por mais que eu insista em levar as minhas imagens mentais para os mais diferentes lugares, pareço respirar os mesmo ares que me trouxeram aqueles amores e tudo volta, todas essas fotografias imaginárias que preenchem meu imaginário com lembranças passadas, com lembranças vividas, tão vívidas que não são passado, pois repassam por mim e revivem sentimentos quase apagados, que quase pareciam ter adormecido e que voltam mais despertos, inflamados, incendiados e se tornam a própria fênix lendária, incendiária de vida à dar vida as imagens do meu peito, que na chama crepitam e na fumaça se tornam intensas e no brilho dos meus olhos podem ser vistas, claras e nítidas, não só uma mas todas ao mesmo tempo por que o brilho é intenso, denso e me leva para aquela tarde na grama com a primavera brotando ao nosso redor, para um dia de chuva no seu quarto, uma madrugada sem despertador, uma noite quieta na minha antiga casa onde só ouvíamos a respiração um do outro e só o que importava era o que sentíamos naquele instante, por fim mas não menos importante me leva para nosso último dia juntos, sentados num banco frio, mas entre abraços quentes, conversas casuais sobre a vida, sobre o mundo, sobre tudo o que vinha a mente, menos o que eu mais queria falar, o que eu mais queria tirar de mim em palavras e beijos e jeitos e não havia jeito, não havia forma melhor do que o silêncio e todo o sentimento transmitido entre nossos olhares, pois esse seu olho que tanto me fascina ainda está incrustado na minha mente e dessa forma torno a vê-la, torno a ver o campo de girassóis do teu olho florindo para mundo e por isso me sinto bem, me acalmo e percebo no meio de todo esse fulgor que talvez eu esteja amando um passado que revisito, que ainda sinto, mas que não deixa de ser passado brilhando em meio a fumaça.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

O que não digo


Eu queria falar mais com você, mas não consigo
É como se todas as minhas palavras fossem truncadas, deslocadas, erradas
É como se o momento nunca fosse bom para conversas
É como se eu não tivesse nada para te dizer
No fundo, só quero saber como estás
Só quero dizer que sinto saudades
Só quero falar trivialidades
Queria mesmo é te ver
Tuas simplicidades ínfimas
Tuas complexidades íntimas
Tuas particularidades, sem mais

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Mais do que são

Quando Alicia era pequena, o mundo era cercado de mistérios incompreensíveis. Coisas mágicas aconteciam. Elas pareciam brotar da sua imaginação para o espaço ao seu redor, principalmente quando brincava no pátio em meio aos gnomos de pedra. Alicia sentia que tinha um certo poder e sentia que o mundo era muito maior e mais enigmático do que os adultos imaginavam.

Em meio aos companheiros de pedra, ela sentia algo diferente. Por exemplo: quando ela segurava a varinha mágica, que não era mais que um graveto da madeira, sabia que tinha que ter cuidado. Alicia sabia que aquele simples pedaço de madeira podia destruir metade da cidade.

Em meio aos gnomos de pedra, tudo era mais do que realmente era.

Aos 10 anos Alicia e sua família se mudaram para a casa nova e ela nunca mais sentiu nada parecido. Agora que é adulta, Alicia sente falta daquele tempo, sente falta das coisas serem mais do que elas são, sente falta dos gnomos de pedra no jardim. Ela não sabia ao certo o porque perdeu esse “poder” ou porque nunca mais sentiu nada parecido.

Talvez no fundo ela saiba, mas não queria pensar nisso.

Sim, bem no fundo ela sabe. Ela sabe que ela nunca teve nenhum “poder”, que as brincadeiras eram de verdade, mas que não era ela que transformava o mundo e sim, ela poderia descuidadamente destruir metade da cidade por que não era ela. Nunca foi. Eram os gnomos, eram os companheiros de pedra, eram os guardiões do jardim. Ela nunca mais teve aquela sensação porque eles não vieram na mudança. Eles sumiram na noite anterior e nunca mais foram vistos.

Alicia sente falta daquele tempo, mas agora adulta não quer encontrar os gnomos. Agora ela os teme. Alicia sabe que jamais deixará de temê-los, muito menos de acreditar neles e sente certo alívio as vezes. Ela é adulta.


Nas noites escuras, antes de dormir, Alicia se agarra no travesseiro e sente medo do futuro, sente-se desprotegida, sente-se uma criança de novo. Apesar de tudo, Alicia sente a falta dos gnomos do jardim. Dos amigos que a protegiam e lhe davam o poder de destruir meia cidade. Alicia sente a falta dos seus guardiões de pedra.